quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Apenas Um Trabalho

O sangue escorria pela face de Elon misturado ao seu suor, seu corpo estava dolorido e esgotado, em sua cintura pendiam dois punhais juntos de um pergaminho. Não conseguiria correr muito mais e esperava ter despistado os guardas que estavam atrás dele.
Entrou em um beco no meio das muitas casas da capital do Reinado e bateu três vezes a porta.
– Quem deseja? – uma voz rouca, obviamente masculina, perguntou por trás da porta.
– Um amigo seu – Elon respondeu. – E um não muito bem no momento, se puder...
A porta se abriu com um estalo antes dele terminar a frase e revelou um homem alto e forte, vestindo roupas acinzentadas e portando uma poderosa e anormalmente grande clava.
– Pelos deuses... – o homem começou – o que aconteceu com você?
– Não se preocupe. O sangue não é meu se é o que quer saber. – respondeu Gorman entrando rapidamente e trancando novamente a porta em total silencio – Tive alguns imprevistos no trabalho, mas nada que pudesse me fazer falhar.
– Sei. Elon nunca falha. Mas então, de quem é o sangue?
– Não sei direito, acho que um dos guardas da biblioteca. Perdi ele de vista por um segundo e o desgraçado me fez sujar a roupa, por causa dele tive que correr dos outros guardas.
– Tudo bem, mas quantos você matou?
– Três ou quatro. – falou com indiferença.
O homem bateu com a palma da mão na testa e suspirou. Então falou:
– Ao menos conseguiu o pergaminho?
– Ei, você mesmo não disse que Elon nunca falha? Aqui está. – e lhe entregou um pergaminho cuidadosamente enrolado e amarrado com um laço vermelho. Depois continuou – E saiba que deu muito trabalho encontrar ele. Por que não me falou que estaria na seção reservada? Poxa tive que procurar por tudo, inclusive naquelas letrinhas miúdas da lista de tomos.
– Não reclame, o simples prazer de ter invadido um local que foi financiado por dois dos mais ricos do Reinado já te satisfez. E muito. – falou o homem entre gargalhadas.
– É, eu e você sabemos disso. Mas, o que tem de importante nesse pedaço de papel velho, mofado e super escondido Sig?
– Nada de mais, só um antigo relato de um experimento mal sucedido. Acredito que posso realizá-lo com perfeição.
– Você é um alquimista muito melhor que eu, mas acha mesmo que pode fazer uma coisa dessas, seja lá o que for?
– El – Elon se sentiu irritado. Não gostava de ser chamado pelo seu apelido de infância, mas conseguiu se conter – você não sabe muito sobre meus conhecimentos. Como você deveria ter feito, eu continuei meus estudos e hoje devo ser um dos maiores especialistas dessa região. – se gabou Sig.
– De que adiantava eu continuar a estudar? Aprendi o que queria, agora sei fabricar meus venenos e admito que perdi um pouco do medo de tratar deles. Pronto, como certas pessoas que conheço não pretendo ser um grande especialista.
– Que seja. Bom, até mais. Sabe onde me encontrar se precisar.
– Não espere que eu viaje até Wynlla só pra ver essa sua cara.
Após isso, o homem retirou um pequeno frasco de um bolso oculto em sua capa e bebeu um liquido de dentro dele. Seu corpo começou a sumir e sua imagem a ficar turva e desbotada. Por fim, falou em um ultimo suspiro:
– Quase esqueci, deixei seu pagamento na sua cama, e um pequeno presente. Espero que goste.
Um sorriso foi a ultima coisa que Sig conseguiu ver no rosto de Elon antes de seu corpo ser transportado pela poção.
Elon ainda ficou parado por alguns minutos pensando na noite e no que fazer com o dinheiro que ganhara pelo trabalho. Enfim foi até sua cama, deixou seus dois punhais sobre um criado mudo e se voltou para um embrulho, possivelmente uma caixa, junto de um saco de pano negro amarrado.
Segurou o pacote e o chacoalhou como tinha o costume. Começou a desembrulhá-lo e ficou incrivelmente feliz com o interior da caixa, dois punhais idênticos e alongados com lindas bainhas trabalhadas com adornos em forma de varias luas prateadas e roxas. Retirou um deles da bainha e viu uma linda lamina negra como a noite se revelar.
Dentro da caixa, um pedaço de pergaminho amassado e velho continha as palavras “prontos para uso”.
Elon se jogou na cama, satisfeito com o resultado de sua noite. Enquanto brincava com suas novas armas, falou consigo mesmo:
– Você e seus pergaminhos Sig, quase me matei por causa de um relatório de uma experiência mal sucedida, mas... – seus olhos começaram a ficar pesados, estava com sono afinal, muito sono, e não conseguia mais pensar claramente – Por que estava na seção reservada?

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